Da ciência para a prática: o protocolo apresentado por Erick Voorn na Conferência LAMA2 em Istambul


Durante a LAMA2 Conference 2026, realizada em Istambul, um dos temas que mais chamou atenção das famílias e profissionais presentes foi a apresentação do fisioterapeuta e pesquisador holandês Erick Voorn, do Amsterdam UMC. Sua palestra trouxe um assunto extremamente importante para pessoas com doenças neuromusculares: como manter o corpo ativo de forma segura, eficiente e baseada em ciência.

Por muitos anos, pacientes com distrofias musculares ouviram recomendações contraditórias sobre exercícios físicos. Enquanto o sedentarismo acelera perda funcional, fadiga e descondicionamento, o excesso de esforço também pode gerar sobrecarga muscular. É justamente nesse equilíbrio delicado que o trabalho apresentado por Erick Voorn ganha relevância.

O que é o protocolo B-FIT?

O protocolo apresentado chama-se B-FIT (Bergsma’s Fitness Intervention Training), desenvolvido pelo Amsterdam UMC para pessoas com doenças neuromusculares lentamente progressivas.

A proposta do programa é oferecer um modelo de treinamento aeróbico adaptado, individualizado e seguro, respeitando os limites fisiológicos do paciente.

O protocolo utiliza um conceito chamado treinamento polarizado, no qual:

  • aproximadamente 75–80% do exercício é realizado em baixa intensidade
  • e apenas 20–25% em intensidade mais elevada

Esse modelo busca melhorar o condicionamento cardiovascular sem provocar sobrecarga muscular excessiva.

Outro ponto importante apresentado foi que os exercícios são organizados de forma estruturada:

  • sessões em dias fixos
  • períodos de descanso
  • monitoramento da frequência cardíaca
  • adaptação individual baseada no limiar anaeróbico do paciente

O programa geralmente é realizado por:

  • 12 a 16 semanas
  • com cerca de 3 sessões por semana
  • utilizando bicicleta ergométrica, remo ergométrico ou outros aparelhos adaptados.

Por que isso é importante para pacientes LAMA2?

Embora ainda não exista cura para LAMA2-RD, manter o corpo ativo de maneira correta pode trazer benefícios importantes:

  • redução do descondicionamento físico
  • melhora da resistência
  • menor fadiga em atividades do dia a dia
  • melhora cardiovascular
  • preservação funcional
  • maior participação social e qualidade de vida

Um dos pontos mais relevantes da apresentação foi justamente reforçar que:

atividade física segura NÃO significa “forçar além do limite”.

Na verdade, o foco do protocolo é respeitar a capacidade individual de cada paciente e construir consistência ao longo do tempo.

Isso é especialmente importante em LAMA2, onde muitos pacientes acabam entrando em um ciclo de:
fadiga → menos movimento → perda funcional → mais fadiga.

O estudo tem embasamento científico?

Sim.

O protocolo apresentado por Erick Voorn é baseado em estudos clínicos e princípios já utilizados em reabilitação neuromuscular. Os resultados apresentados mostram que programas estruturados de exercício aeróbico podem ser realizados com segurança quando existe:

  • avaliação adequada
  • supervisão profissional
  • adaptação individualizada
  • controle de intensidade

Além disso, o trabalho apresentado em Istambul reforça uma tendência crescente na neurologia e fisioterapia moderna:
a de que pacientes neuromusculares podem e devem se beneficiar de estratégias de condicionamento físico cuidadosamente planejadas.

É viável aplicar no Brasil?

Sim — mas com adaptações.

O protocolo exige:

  • acompanhamento fisioterapêutico
  • avaliação individual
  • monitoramento básico de frequência cardíaca
  • organização estruturada dos treinos

Apesar disso, muitos dos conceitos podem ser implementados mesmo fora de grandes centros internacionais.

O mais importante é compreender que:
cada paciente possui limites diferentes, e qualquer programa deve ser supervisionado por profissionais capacitados.

Um passo importante para o futuro da reabilitação em LAMA2

A apresentação de Erick Voorn mostrou algo muito importante para nossa comunidade:
a ciência da reabilitação em doenças raras está evoluindo.

Não estamos mais falando apenas de “manter alongamentos” ou “evitar perda”.
Estamos começando a discutir:

  • condicionamento
  • resistência
  • prevenção de fadiga
  • qualidade de vida
  • participação funcional
  • protocolos específicos para doenças neuromusculares

E isso representa esperança.

Porque enquanto as terapias genéticas avançam ao redor do mundo, estratégias de reabilitação baseadas em evidência podem ajudar pacientes hoje.


📚 Acesso ao material e estudo

O guia completo do protocolo B-FIT desenvolvido pelo Amsterdam UMC pode ser acessado aqui:

B-FIT Training Guide – Amsterdam UMC

Além disso, o portal internacional da comunidade LAMA2 também reúne atualizações científicas e materiais apresentados na conferência:

LAMA2 – The Road to Therapy

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